TDAH afeta mais de 7% das crianças brasileiras e pode acompanhar o indivíduo por toda a vida
No Dia Mundial de Conscientização do TDAH (13/07), especialistas alertam para a importância do diagnóstico precoce, do combate à desinformação e do acolhimento às famílias
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O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) afeta cerca de 7,6% das crianças e adolescentes brasileiros entre 6 e 17 anos e continua presente na vida adulta para uma parcela significativa da população. Os dados, apresentados pelo Ministério da Saúde em seu Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), reforçam a necessidade de ampliar o acesso à informação de qualidade e ao diagnóstico adequado, tema que ganha destaque no Dia Mundial de Conscientização do TDAH, celebrado em 13 de julho.
Apesar de ser um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais comuns na infância, o TDAH ainda é cercado por mitos e estigmas. Muitas pessoas continuam associando a condição apenas à hiperatividade ou à dificuldade de permanecer sentado, ignorando impactos que podem atingir a aprendizagem, a autoestima, os relacionamentos e a vida profissional.
Além da prevalência de 7,6% entre crianças e adolescentes, o Ministério da Saúde estima que aproximadamente 5,2% dos adultos entre 18 e 44 anos e 6,1% das pessoas entre 45 e 64 anos convivam com o transtorno. A Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), por meio de pesquisas desenvolvidas em seu Ambulatório de TDAH, também destaca que os sintomas podem persistir na vida adulta em cerca de metade dos casos diagnosticados na infância.
Para a neuropsicopedagoga especialista em desenvolvimento infantil Silvia Kelly Bosi, a maior visibilidade do tema representa um avanço importante, mas exige responsabilidade na disseminação das informações.
“Estamos vivendo um momento muito positivo em relação à conscientização. Hoje, famílias e educadores conseguem reconhecer sinais que antes eram frequentemente confundidos com falta de interesse, preguiça ou problemas de comportamento. Ao mesmo tempo, é fundamental compreender que o TDAH é uma condição neurobiológica e não uma escolha da criança. Quanto mais cedo ocorre a identificação e a intervenção adequada, maiores são as oportunidades de desenvolvimento acadêmico, emocional e social”, afirma.
Segundo Silvia, a escola costuma ser o primeiro ambiente onde os sinais se tornam mais evidentes.
“Muitas crianças apresentam dificuldades relacionadas à atenção sustentada, organização, planejamento e controle dos impulsos. No entanto, cada caso se manifesta de forma diferente. Nem toda criança com TDAH é hiperativa, e muitas meninas passam anos sem diagnóstico porque seus sintomas são menos perceptíveis. Por isso, a avaliação precisa ser cuidadosa e realizada por profissionais qualificados”, explica.
A psiquiatra do Ambulatório de TDAH da UNIFESP, Fabricia Signorelli, destaca que o crescimento dos diagnósticos está diretamente relacionado ao avanço científico e ao maior conhecimento da população sobre o transtorno.
“É importante esclarecer que não estamos diante de uma epidemia de TDAH. O que observamos é uma melhora na capacidade de identificar uma condição que sempre existiu. Durante muitos anos, milhares de pessoas permaneceram sem diagnóstico e sem acesso ao tratamento adequado. Hoje temos mais evidências científicas, mais profissionais capacitados e uma sociedade mais aberta a discutir saúde mental e neurodesenvolvimento”, afirma.
A especialista alerta, porém, para os riscos do autodiagnóstico impulsionado pelas redes sociais.
“As redes sociais desempenham um papel importante ao ampliar a visibilidade do tema, mas não substituem a avaliação clínica. Identificar-se com alguns sintomas não significa necessariamente ter TDAH. O diagnóstico exige uma análise abrangente da história de vida, do funcionamento da pessoa em diferentes contextos e da presença de prejuízos significativos. Informação de qualidade continua sendo fundamental.”
A psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan ressalta que a falta de diagnóstico pode gerar consequências emocionais importantes ao longo da vida.
“Recebemos frequentemente adolescentes e adultos que passaram anos acreditando que eram incapazes, desorganizados ou insuficientes. Muitos carregam um histórico de frustrações acadêmicas, dificuldades profissionais e baixa autoestima sem compreender a origem dessas experiências. Quando o diagnóstico acontece, existe um processo de ressignificação muito importante, porque a pessoa passa a entender suas dificuldades sob uma perspectiva mais adequada e menos punitiva.”
Para Thaís, a conscientização é uma ferramenta essencial de promoção da saúde mental.
“O diagnóstico não deve ser encarado como um rótulo. Ele representa uma oportunidade de compreender necessidades específicas, desenvolver estratégias de enfrentamento e construir uma relação mais saudável consigo mesmo. Quanto mais informação qualificada tivermos, menores serão os preconceitos e maiores serão as possibilidades de inclusão.”
O impacto do TDAH também se reflete diretamente na rotina das famílias, que muitas vezes enfrentam uma longa jornada em busca de acolhimento, orientação e acesso aos serviços especializados.
A empresária, mãe atípica e fundadora do Voz das Mães, Natália Lopes, afirma que a conscientização tem um papel decisivo na construção de uma sociedade mais empática.
“Receber um diagnóstico é, ao mesmo tempo, um momento de respostas e de novos desafios. Muitas famílias chegam a esse processo carregando culpa, insegurança e dúvidas sobre o futuro. Quando existe informação de qualidade, elas conseguem compreender melhor o transtorno, buscar suporte adequado e defender os direitos de seus filhos com mais segurança.”
Segundo Natália, o acolhimento ainda é uma das principais demandas das famílias brasileiras.
“Precisamos avançar não apenas no acesso ao diagnóstico, mas também na criação de redes de apoio efetivas. Por trás de cada laudo existe uma criança que precisa ser compreendida, uma família que precisa ser ouvida e profissionais que precisam atuar de forma integrada. A conscientização tem o poder de transformar realidades e promover inclusão.”
Neste Dia Mundial de Conscientização do TDAH, especialistas reforçam que informação baseada em evidências científicas, diagnóstico precoce e acompanhamento multidisciplinar continuam sendo os principais caminhos para garantir qualidade de vida, autonomia e desenvolvimento às pessoas com o transtorno em todas as fases da vida.
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